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ARTEESTIMA

Atualizado: 24 de abr. de 2019

Aceitação, Autoestima e Arte.

Por: Edson Dantas

Artestima é um conceito criado por mim através da observação obtida pela experiência de fotografar mulheres dos mais diversos biótipos, visões de mundo e formas de se enxergarem. Tentei incorporar nessa palavra a junção de outras três, que são: Autoestima, aceitação e arte, esses “As” que liquidificam tudo que é trabalhado no setting fotográfico e que em muito se assemelha ao terapêutico propriamente dito.


Artestima nasce de uma imersão (fotovivência) que vai criando profundidade à medida que no fluxo do ensaio, as horas passam e os poros vão sendo cada vez mais revelados, explorados e acolhidos. Com todas as suas marcas, expressões e cicatrizes que o tempo e a vida vão esculpindo lenta e vigorosamente. E é exatamente nesse ponto que quero chegar. Ponto este que me estapeou desde o início do projeto e lapidou o meu olhar diante de toda essa diversidade e imensidão de perspectivas. Acredito que até então a junção de todas essas palavras ainda não tenham ganhado sentido. Mas a partir desse momento tentarei ser ainda mais sucinto e certeiro. Para isso, tenho que retornar um pouquinho ao início de tudo.


Sou Psicólogo e sempre fui apaixonado pelas infinitas possibilidades do corpo humano, e isto me veio quando iniciei um projeto de fotografia artística de dança (La Bella Danza). Lá, em meio a todos aqueles acontecimentos (saltos, luzes, expressões e música) me encantei com toda a gama de sentimentos que podem ser revelados pelo corpo: Excitação, desânimo, raiva, afeto, melancolia, etc. Uma vez percebendo que tudo isso poderia ser captado de forma completamente improvisada, busquei um outro formato de expressão artística onde eu poderia conduzir a pessoa (no caso a modelo) a navegar por esses sentimentos, designando seus mais íntimos anseios, traumas e desejos. Que há muito pairavam na penumbra infame da discórdia e do mal compreendido. Sim, a cada clique disparado e a cada peça de roupa retirada, uma gama de emoções também eram exaladas. Poses que mostravam o desconforto ou a entrega, expressões que traduziam uma alegria infindável ou uma descrença acometida. Era tudo posto em xeque, ali, no exato instante em que o flash disparava.


Buscava nas entrelinhas as nuances da (in)segurança, mostradas através da voz trêmula que relatava: não fico bem nessa pose, não gosto desse meu lado, vê se tu esconde a minha barriga... E eu com a minha teimosia e ousadia ia lá e buscava aquela foto que para os meus olhos era simplesmente fascinante. E era nesse exato instante onde algo se revelava e a aquela mesma pessoa que havia reclamado da pose não conseguia se reconhecer naquela foto (de tão deslumbrante que estava). Foto crua, sem nenhum tratamento ou edição e que já conseguia mostrar toda a beleza e graciosidade que sempre esteve ali e que não era vista, ou por longas doses de vilipêndios diários ou por comparativos (com arquétipos) que nem se quer existiam.


Em suma, era no momento desse não reconhecimento de si que eu percebia que algum gatilho era disparado (assim como os flashes), que algo era transmutado e que as certezas já postas eram elevadas aos mais altos patamares da desconfiança e todos os adjetivos outrora usados sucumbiam e em seu lugar um novo cenário se formava. Uma conjuntura de novas possibilidades e ressignificações.


Alí o processo estava quase concluso, me restava apenas melhorar um pouco as cores, fazer pequenas correções técnicas e apresentar o material para cliente para que ela própria constatasse que por muito tempo esteve errada e com a leitura distorcida em relação ao seu corpo e a sua vida. Que ela não precisa se encaixar em nenhum padrão. Que ela é o seu próprio padrão e que desta forma ela mesma pode ser a sua melhor versão a cada dia. Que não precisa se comparar com o que está ao seu lado e sim, com o que ela mesma foi ontem. Que os rótulos ficam bem em produtos, e não em pessoas, e que os adjetivos só servem quando bem aplicados nas redações.


Agora sim, o meu trabalho estava encerrado, aquela cliente conseguiu romper a casca démodé que lhe deixou aprisionada esse tempo todo em volta dos seus próprios fantasmas e que neste minuto ela construiu asas e poderá voar por universos ainda não povoados de si e descobrir quão encantador é o cheiro da liberdade, passeando desprendidamente pelas infindáveis possibilidades que arte pode nos propor. A fotografia é mais que um recorte histórico do presente que passou, é a proposta de um novo futuro que não tarda em chegar. É um novo AmanheSer que surge dispensando as nuvens que já se dissipam no ar.





Edson Dantas é Sociólogo, Psicólogo e Fotógrafo do AmanheSer.

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